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OS DOIS
BURRINHOS Dois burrinhos de tropa seguiram trotando pela estrada afora. O da frente conduzia caixas de ouro em pó e o detrás levava sacos de farelo. Eram burros da mesma igualha, mas o primeiro não queria que o segundo caminhasse ao lado dele. - Não se empare comigo não, que quem carrega ouro não é do mesmo naipe de quem carrega farelo. Cinco passos de distância. O burrinho do farelo submetia-se, trotando na traseira, de orelhas murchas, roendo-se de inveja do fidalgo. De repente: - Uai ! São ladrões. Agarram os burrinhos pelo cabresto. Examinam a carga do burro humilde: - É farelo! Vá para o diabo ! Foram olhar o da frente : - Ouro, ouro ! gritam, de olho arregalado. Mas o burrinho resiste. Dá coices e dispara pelo campo afora. Os ladrões correm e cercam o burrinho. Açoitam o burrinho com pedra e pau. E tomam o ouro. Terminada a festa, o burrinho do ouro, mais morto do que vivo, que nem podia ficar em pé, reclamou ajuda do outro que, calmamente, comia capim. - Socorro, amigo ! Venha acudir-me que estou descadeirado. O burrinho do farelo respondeu : - E eu já posso aproximar-me de vossa excelência ? - Como não ! Minha fidalguia estava nas caixas de ouro. Sem elas, sou uma pobre besta igual a você. - Eu sei. Você é como certos grandes homens do mundo que só valem pelos cargos que ocupam. No final das contas, todos somos simples bestas de carga: eu, tu e eles. E ajudou o burrinho a voltar para casa. Deixando a lição que ardia nas costas do vaidoso. |
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A CARTA DO PAI A terrinha pouca de seu Antônio não dava para ele e os seus filhos trabalharem. Por isso, quando Zé e Severino ficaram de maior, foram para o Sul atrás de trabalho. Um dia, seu Antonio sentiu saudades dos filhos e falou para dona Maria escrever uma carta. Quando a carta chegou, Zé estava assistindo ao jogo na televisão. Viu que a carta era dos pais e ficou alegre. Colocou a carta no armário para ler depois do jogo. Mas, quando o jogo acabou, era a hora do café e, depois, Zé deu uma saída para descansar a cabeça do mundo da fábrica. O certo é que nem chegou a abrir a carta dos pais. E nem contou ao Severino que tinha chegado essa carta. Enquanto isso, os pais, todo dia de feira, mandavam saber no correio se tinha chegado carta dos filhos. E nada ! Um dia, Severino resolveu fazer uma limpeza no armário e deu com a carta, coberta de poeira, ainda lacrada. Olhou o remetente e viu que era carta dos pais. Nisso vai chegando o Zé. Severino chamou o irmão para ver a carta e abrem e começam a ler. Lêem uma vez e mais outra, para entender melhor as recomendações dos pais. Ficam muito felizes e resolvem responder à carta. Assim mesmo acontece na vida. A gente recebe a carta de Deus, nosso Pai. Recebe com alegria, mas os negócios da vida fazem a gente guardar no armário a carta de nosso Pai. E a poeira toma conta e deixamos sem resposta a carta de Deus. A não ser que apareça um Severino em nossa vida.
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Extraído do livro Peixe Pequeno os Grandes Comem - Frei Roberto E. de Oliveira